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Nenhuma ingratidão para com meu ofício de psicanalista.
Afinal, tal como o poeta, ele vive das palavras e seus afetos. No entanto, no
decorrer dos anos, a experiência tem me ensinado, cada vez mais, que as palavras
não brotam sem se alimentarem de águas subterrâneas, raízes rizomáticas que
configuram os mundos dos sons, dos timbres, das modulações, das vozes e suas
conexões com os ritmos dos corpos, da terra e seus habitantes, do cosmos.
Não é de hoje que sei que a cura não se faz só por palavras. E andava em busca
de vivências que me ajudassem, para além de minha análise pessoal, a penetrar
nos mundos pouco conhecidos do não-verbal. Assim, foi um belo encontro o que
tive com a música orgânica e com Fernando Neder, um de seus pioneiros e
promotores mais calorosos, maestro tão suscitante quanto regente, com muitas
estradas e trilhas, sonoras, percorridas e belamente incorporadas, abrindo-se
generosamente à transmissão. A oficina de que participamos, de forma intensiva,
no Centro de Vivências de Nazaré, reuniu treze pessoas as mais diferentes
produzindo um caos polifônico do qual foram emergindo harmonias diversas,
tanto corporais como sonoras e expressivas. Explorar a amplitude das vogais,
suas diversas combinações e diferentes direções fez surgir diversas organizações
grupais e permitiu a cada um se dar conta de dimensões insuspeitadas da
experiência de si, soltando a voz e podendo perceber por onde ela se estende,
quando morre, quando engasga, quando treme ou ganha intensidade e se amplia;
ainda mais instigante foi o desafio de tentar perceber os outros sem a
referência da visão e da imagem, que podem iludir, mas apenas pela escuta de
seu canto ou de seus sons, tateando em busca de identificar as tonalidades
afetivas de suas expressões, distinguir um riso de um pranto, poder fazer um
contraponto ou um contracanto que enriqueça a experiência, encontre ou altere
o ritmo e libere a música. Por sua vez, participar de cantos coletivos,
aprendendo canções ancestrais ou ritmos tribais, tornou possível a dissolução
das fronteiras individuais, a intensificação da experiência e momentos de
grande alegria e plenitude. Impressões difíceis de transmitir, mas que deram
à essa minha vivência da oficina de música orgânica a dimensão do encontro com
um portal para novas percepções do mundo e de mim mesma, assim como novos
caminhos que estou encantada em percorrer.
Muito agradecida a todos,
Priscila Magalhães - Rio de Janeiro, 18/02/2005
"Agora só espero a despalavra: a palavra nascida
para o canto desde os pássaros.
A palavra sem pronúncia, ágrafa.
Quero o som que ainda não deu liga.
Quero o som gotejante das violas de cocho.
A palavra que tenha um aroma ainda cego.
Até antes do murmúrio.
Que fosse nem um risco de voz.
Que só mostrasse a cintilância dos escuros.
A palavra incapaz de ocupar o lugar de uma imagem.
O antesmente verbal: a despalavra mesmo."
Manoel de Barros
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