De uma maneira geral, pode-se afirmar que a sociedade conteporânea prioriza o contato visual, em detrimento dos outros sentidos.
É a nossa adaptação ao mundo em que vivemos que determina, em grande parte, os sentidos mais utilizados. Aparentemente, dependemos, muito mais drásticamente da visão para atrevessar a rua, "ver" televisão, ler e escrever do que por exemplo, do tato e da audição.
Um índio atravessando uma floresta, percebe dois estímulos: do seu lado direito, ele ouve um ruído e o identifica como de uma onça; do seu lado esquerdo, ouve outro ruído que reconhece como de uma paca. Neste exemplo, percebe-se com clareza a possibilidade de se fazer uma importante opção a partir de uma identificação auditiva: do lado direito, o índio encontraria o perigo e talvez até a morte, enquanto do lado esquerdo, encontraria o alimento, imprescindível à sua vida! Esta é uma situação comum para quem vive - como o índio,- em uma floresta, onde ouvir é enxergar no escuro.
Se chamarmos de escuro as áreas que a visão não alcança, seja atrás das moitas, seja no interior das pessoas, onde reinam eternas sombras, o acesso a essas "áreas de sombra" será feito através do tato, da audição, da intuição e não pela visão.
O ouvir está relacionado com a capacidade de entrega, de ser receptivo e cooperativo. Trata-se de uma atividade basicamente Yin, carente em uma sociedade altamente Yang como a nossa.
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(1) Capra, Fritjof - O ponto da Mutação. São Paulo, Cultrix, 1986, p.36
(2) ver a esse respeito: Halpern, Stevens - Som Saúde. Rio de Janeiro,
Tecbox, 1985, p.118.
Certos efeitos da poluição sonora no organismo
humano já são bem conhecidos. O excesso de ruídos determina uma enorme gama de
doenças respiratórias, psíquicas e cardio-vasculares. A sobrecarga de estímulos
sonoros poluentes, o lixo sonoro, gera grande tensão. A maior parte das pessoas
reage a essa tensão de forma cumulativa e pouco consciente: irritação,
agressividade, estresse. Os efeitos do som alterando os ritmos internos, os
processamentos cerebrais e o humor são geralmente subterrâneos, mas nem por
isso menos poderosos. Grande parte da sociedade tende a subestima-los ou nem
mesmo os reconhece. O excesso de ruídos das grandes cidades tem comprometido
bastante a saúde das pessoas, influenciando-as principalmente ao nível do
comportamento e das relações sociais.
O Dr. Steven Halpern relata uma experiência
realizada por pesquisadores norte-americanos: Um pesquisador, com o braço
engessado, deixa cair uma pilha de livros e papéis na calçada, entre pedestres.
Começa a apanhar os livros com ar desanimado de quem prescisa de ajuda. Outro
pesquisador está com um barulhento cortador de grama a poucos metros de
distância. Quando o cortador estava desligado, 80% dos traseuntes pararam para
ajudar. Quando ele estava ligado, apenas 15% das pessoas se dispuseram a
ajudar.(2)
Todo o metabolismo, os processos mentais, a
própria inteligência e a adequação das nossas respostas às contigências da vida
- são fenômenos vibratórios. Passíveis, portanto, de interferência e intoxicação
pela poluição sonora. No exemplo acima, observa-se como o interesse e a
cooperação entre as pessoas diminuem drasticamente na presença do barulho.
Ou seja, quando fechamos os ouvidos não nos fechamos apenas para os sons, até
por que os ouvidos não têm esfincter, palpebras, pupilas, nenhum sistema de
proteção mecanica eficiente. Para ouvir menos, criamos cortinas-bloqueios
internos, profundos e cheios de in(com)plicações.
É cada vez maior o volume do som nos anúncios
de televisão, nos shows, nos carros de som, nas buzinas dos automóveis.
Isto irrita as pessoas e as torna menos cooperativas e cada vez mais
competitivas, dificultando a introspecção, o insight, a criatividade.
O limiar da percepção , a sociedade como um todo vai se distanciando
perigosamente dos sons que inspinram e harmonizam, como o som dos brejos,
o marulhar das ondas, a batida do coração, o revoar dos pássaros no fim da
tarde...